Resumo: O artigo examina a tese, recorrente desde a década de 1930, de que o Terceiro Reich teria executado um “plano” em fases para dominar a América do Sul, e a recoloca na longa duração da política alemã em relação ao sul do Brasil. Mostra que a emigração alemã, embora motivada para a maioria dos colonos pela busca de uma vida melhor, foi desde meados do século XIX organizada e interpretada como projeto nacional, como atesta o guia de F. Epp, Rio Grande do Sul oder Neudeutschland (1864). Com base em documentos do Auswärtiges Amt reproduzidos na tese de Jürgen Hell (1966), na bibliografia recente (Schulze, Frotscher, Bertonha e Athaides) e em fontes publicadas, mostra que desde cerca de 1900 o Estado alemão financiou e dirigiu, por meio de seus cônsules e de forma deliberadamente sigilosa, uma política escolar e associativa destinada a impedir a assimilação dos colonos e a vinculá-los ao Reich. Discute a controvérsia sobre se essa política visava a anexação do sul do Brasil, analisa as continuidades e rupturas sob o nacional-socialismo e distingue os elementos documentados do esquema das “quatro fases” daquilo que permanece interpretação. Conclui que a política de germanidade foi real, estatal e sigilosa, que a intenção anexionista permanece objeto de debate e que, para o período nazista, as fontes mostram instrumentos de controle e de retorno ao Reich, mas não um plano central de conquista.

Palavras-chave: Deutschtumspolitik; Auswärtiges Amt; teuto-brasileiros; Neudeutschland; Auslandsorganisation; perigo alemão; Estado Novo.

Abstract: This article examines the claim, recurrent since the 1930s, that the Third Reich carried out a phased “plan” to dominate South America, and places it in the longer history of German policy towards southern Brazil. It shows that German emigration, although driven for most settlers by the search for a better life, was from the mid-nineteenth century organized and interpreted as a national project, as F. Epp’s guide Rio Grande do Sul oder Neudeutschland(1864) attests. Drawing on Foreign Office documents reproduced in Jürgen Hell’s dissertation (1966), on recent scholarship (Schulze, Frotscher, Bertonha and Athaides) and on published sources, it shows that from around 1900 the German state financed and directed, through its consuls and with deliberate secrecy, a school and associational policy designed to prevent the settlers’ assimilation and bind them to the Reich. It discusses the controversy over whether this policy aimed at annexing southern Brazil, analyses continuities and ruptures under National Socialism, and separates the documented elements of the “four phases” scheme from what remains interpretation. It concludes that the policy of Germanness was real, state-run and secret, that its annexationist intent remains debated, and that for the Nazi period the sources show instruments of control and of return to the Reich, but no central plan of conquest.

Keywords: Deutschtumspolitik; German Foreign Office; German-Brazilians; Neudeutschland; Auslandsorganisation; German danger; Estado Novo.

Introdução

Desde a década de 1930 circula, no Brasil e fora dele, a ideia de que o Terceiro Reich teria posto em prática um plano em quatro fases para submeter a América do Sul: a conquista da juventude por meio das escolas alemãs, a infiltração no poder econômico, o controle da opinião pública pela imprensa e, por fim, a montagem de redes de espionagem. A ideia nasceu no contexto do chamado “perigo alemão” e foi retomada, desde então, em reportagens, inquéritos policiais e obras de divulgação, quase sempre sem distinguir o que as fontes documentam daquilo que é interpretação.

A tese merece exame cuidadoso, mas não pelo motivo habitual. O seu problema não está em exagerar a ação alemã na América do Sul, e sim em situá-la mal: atribui ao nazismo, como invenção sua, instrumentos que o Estado alemão já empregava no sul do Brasil uma geração antes de Hitler. Para mostrá-lo, este artigo separa três questões que costumam aparecer confundidas: (1) se, e por que meios, o Império alemão (1871–1918) procurou transformar o sul do Brasil numa “nova Alemanha”; (2) o que mudou e o que permaneceu com o aparato nacional-socialista dirigido aos alemães e descendentes no exterior; e (3) em que medida o chamado “perigo alemão” foi ameaça real ou construção discursiva, alimentada por autores brasileiros e pela propaganda das potências rivais.

O texto apoia-se em quatro conjuntos de fontes. O primeiro é a tese de doutorado de Jürgen Hell, defendida em Rostock em 1966 e nunca publicada em livro, que reproduz e cita extensamente a documentação do Auswärtiges Amt (Ministério das Relações Exteriores alemão) então conservada no Arquivo Central da RDA em Potsdam (DZA Potsdam); o autor deste artigo trabalha com cópia das passagens relevantes.1 O segundo é a historiografia recente sobre a germanidade (Deutschtum) no sul do Brasil, em particular Frederik Schulze, Méri Frotscher e o balanço de João Fábio Bertonha e Rafael Athaides sobre o partido nazista nas comunidades alemãs da América Latina. O terceiro são textos contemporâneos, como o ensaio de Loretta Baum publicado em 1919 na Hispanic American Historical Review, que registram como os observadores da época viam o problema. O quarto é o estudo de Arthur L. Smith Jr. sobre o Deutsches Ausland-Institut de Stuttgart, que oferece um termo de comparação com o caso norte-americano.2

1. A emigração como projeto e a “nova Alemanha” (1849–1914)

A maioria dos alemães que se estabeleceram no sul do Brasil partiu, como tantos imigrantes antes e depois deles, em busca de terra, trabalho e uma vida melhor. Mas a emigração alemã para o Brasil nunca foi apenas a soma de decisões individuais. Desde o início ela foi também organizada, dirigida e interpretada por terceiros com objetivos próprios — o que Frederik Schulze chamou, no título de seu estudo, de “emigração como projeto nacionalista”.3 O próprio Estado brasileiro recrutou imigrantes por meio de agentes como Georg Anton Schäffer, que em 1824 assegurava que os colonos não precisariam aprender português porque “ficariam entre seus conterrâneos”; e em 1851 o Império contratou soldados alemães, os chamados Brummer, entre os quais havia muitos participantes da revolução de 1848, que depois formariam boa parte da elite intelectual teuto-brasileira.4 Do lado alemão, o Verein zur Centralisierung deutscher Auswanderung und Colonisation, fundado em Berlim em 1849 como círculo de altos funcionários, pretendia “organizar a emigração em sentido nacional e desviá-la para a América do Sul”, apresentando o sul do Brasil como destino preferencial; e as sociedades de colonização que se seguiram buscavam fundar núcleos exclusivamente alemães, em que os colonos pudessem, nas palavras de Hermann Meyer, fundador de Neu-Württemberg (atual Panambi), manter-se “sem o perigo de se dissolver no brasileirismo”.5

Foi nesse ambiente que ganhou circulação o próprio nome de “nova Alemanha”. Em 1864, o Dr. F. Epp, que percorrera o Rio Grande do Sul, publicou em Mannheim um guia de emigração intitulado Rio Grande do Sul oder Neudeutschland e dedicado “ao povo alemão”. No prefácio, observava que milhões de alemães já haviam deixado a pátria em busca de uma nova, e que esses “idealistas” esperavam encontrar no novo país o Estado ideal que a Alemanha não lhes oferecia; ele próprio julgava-se no direito de “dar o nome de Nova Alemanha” à região entre as nascentes do Uruguai, o Paraná e a foz do Prata, que prometia tornar-se “uma nova pátria, uma segunda Alemanha”, onde “a velha Alemanha, rejuvenescida, celebrará sua ressurreição mais gloriosa do que nunca”. O núcleo dessa nova Alemanha já existia: a província meridional do Império do Brasil, com 50 mil alemães.6

O texto de Epp mostra bem a ambivalência do termo. As razões que ele apresenta para emigrar são as de um liberal: o clima, a terra barata, uma constituição “liberal” cujas leis garantem a segurança da pessoa e da propriedade e concedem ao estrangeiro a cidadania brasileira “sem outros entraves”; aos leitores, promete conduzi-los “não à servidão e à miséria, mas à liberdade e à independência, à felicidade e ao bem-estar”.7 Sobre São Leopoldo, registra que a maioria dos moradores ali chegara “como gente pobre” e enriquecera.8 Mas o mesmo autor, que visitou as terras da sociedade de colonização Teutonia a convite desta e apresentou sua colônia como “uma nova Canaã para os alemães”, exalta os colonos do Hunsrück como “pioneiros da cultura e da civilização alemãs”, apoia o desejo de um proprietário de que suas terras fossem compradas por alemães, “para ter ao redor proprietários alemães”, e termina a descrição da colônia de São Lourenço com uma saudação à Germânia: também os filhos nascidos no sul distante são “filhos teus”, “dignos filhos da grande pátria comum”, que lutaram “por uma nova pátria alemã” como os germanos diante de Roma — “não com a espada, mas com o machado”. E adverte que, sem união, os colonos seriam “joguete dos estrangeiros”, que usariam suas forças “para a opressão do elemento alemão”.9 Em 1864 não havia ainda Império alemão nem política oficial que pudesse dar a essas palavras um alcance estatal; mas a ideia de que os colonos, embora cidadãos brasileiros, continuavam pertencendo à nação alemã e formavam no sul do Brasil uma “nova pátria alemã” já estava formulada.

A ideia de que as colônias alemãs do sul do Brasil poderiam servir ao poder político alemão é, portanto, anterior à fundação do Império em 1871 e muito anterior ao nazismo. Já em 1862 o publicista Johann Jakob Sturz falava de uma emigração a ser dirigida ao Prata para que ali “crescesse um império” em que “o elemento alemão dominaria”.10 Em 1879, Friedrich Fabri, uma das vozes centrais do movimento colonial, esperava que uma imigração alemã organizada “chegasse pouco a pouco à posse da maioria e, com ela, também do poder político”, e reclamava para a Alemanha um “direito limitado de intervenção” nos assuntos locais; no mesmo ano, Ernst von Weber sonhava com “Estados-filhos nacionais além-mar”.11

Na virada do século essas ideias ganharam formulações mais agressivas. O economista Gustav Schmoller, figura de primeiro plano da universidade de Berlim, desejava que “a todo custo” crescesse no Brasil, ao longo do século XX, um país de 20 a 30 milhões de alemães, “não importando se permanece parte do Brasil, se se torna um Estado próprio ou se entra em relações estreitas com o nosso império”, e acrescentava que, sem a ligação garantida “por navios de guerra”, o desenvolvimento alemão estaria ameaçado.12 Um artigo anônimo publicado em 1903 nas Grenzboten, influente semanário político, foi mais longe: assim que o sul do Brasil estivesse “na nossa esfera de interesses”, surgiria “em poucos anos” do outro lado do Atlântico “um vigoroso império colonial alemão”.13 Em 1911, Otto Richard Tannenberg projetava para 1950 um protetorado alemão sobre a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e o sul da Bolívia “até o sul do Brasil”, onde o alemão seria a “língua nacional”.14 E a Deutsche Post, jornal teuto-brasileiro de São Leopoldo, chegou a escrever que não seria de admirar se Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul “um dia declarassem a secessão e a independência”, o que abriria “uma nova perspectiva para a Alemanha”.15

Também representantes oficiais adotaram, por vezes, esse tom. O ministro alemão no Rio de Janeiro, Richard Krauel, foi citado em 1895 com a frase: “Nós, alemães, não ameaçamos; mas, se for preciso, golpeamos com força.” E em 1921, já na República de Weimar, o cônsul em Porto Alegre, Walther Reinhardt, escrevia ao Auswärtiges Amt que o Rio Grande do Sul oferecia ao germanismo “possibilidades de expansão como talvez em nenhum outro lugar do mundo”: ali se poderia, “se a coisa for bem conduzida”, fazer “não apenas política de preservação étnica, mas, pelo caminho mais pacífico, verdadeiras conquistas nacionais”.16

É preciso, porém, registrar o outro lado. Schulze, que reconstruiu exaustivamente esse universo discursivo, observa que vozes abertamente anexionistas “surgiram apenas isoladamente” e não podem ser atribuídas com segurança a nenhuma organização; o próprio Alldeutscher Verband recusou em 1908 atuar no sul do Brasil; e foram justamente os imigrantes e seus porta-vozes, como Carl von Koseritz, que difundiram a palavra de ordem “nenhuma anexação”, retomada por Fabri e por Krauel, que em 1900 rejeitou publicamente os “sonhos fantásticos” de uma ligação política mais estreita com os teuto-brasileiros.17 A questão, portanto, não se resolve citando publicistas. É preciso perguntar o que o Estado alemão efetivamente fez.

2. O Auswärtiges Amt e a política escolar: “direção à distância” e sigilo

É aqui que a tese de Hell traz sua contribuição mais sólida, porque não se apoia em publicistas, mas na correspondência interna do Auswärtiges Amt com sua legação no Rio de Janeiro e seus consulados. Segundo uma memória oficial (Denkschrift) sobre as escolas alemãs no exterior citada por Hell, havia em 1914 cerca de 900 escolas de língua alemã fora da Alemanha, com 2.600 professores; entre os objetivos dessa rede figuravam, ao lado da difusão da língua, a propaganda cultural da expansão econômica e o empenho em levar os cidadãos de origem alemã nos países de imigração a resistir à assimilação (Abwehr der Assimilation).18 O Auswärtiges Amt assegurava sua “supremacia e direção à distância” (Oberhoheit und Fernlenkung) pelo envio de professores “confiáveis”, pelos recursos do fundo escolar, pela remessa de material didático e pela orientação das associações e comunidades escolares por meio dos cônsules. O fundo do Reich para as escolas no exterior passou de 60 mil marcos em 1880 a 1,1 milhão de marcos pouco antes da guerra, e o número de escolas subvencionadas, de 21 para 511. A subvenção era condicionada a que as escolas permitissem aos diplomatas e cônsules — “e, eventualmente, também a encarregados especiais do Reich” — inspecionar suas instalações, seu ensino e suas finanças.19

A América Latina tinha nesse sistema um peso sem paralelo: das 900 escolas, 734 ficavam no continente e 587 no Brasil, sobretudo no Rio Grande do Sul (324) e em Santa Catarina (194). As subvenções do Auswärtiges Amt a escolas brasileiras passaram de quatro estabelecimentos e 4.736 marcos em 1895 para 283 estabelecimentos e 162.706 marcos em 1913. Num conjunto de 24.025 alunos, o ensino semanal em alemão somava 15.793 horas, contra 1.574 em português.20 Hell vê nesses números a prova de que ao objetivo geral de “preservação do germanismo” se somava, no caso brasileiro, “o objetivo particular da almejada transformação do sul do Brasil numa nova Alemanha ultramarina” — mas essa frase é interpretação sua, não citação de documento.21

Mais reveladores do que os números são os documentos sobre o modo de agir. A partir de 1900, escreve Hell, o Auswärtiges Amt passou a aplicar no Brasil uma política escolar orientada pelo cônsul-geral em Porto Alegre, Feindel, e pelo ministro no Rio, Treutler. Em memória de dezembro de 1902, o cônsul-geral definia a tarefa da escola teuto-brasileira no Rio Grande do Sul: “replantar” na juventude “um íntimo apreço pela língua alemã e uma orgulhosa consciência de descender do povo alemão”.22 Os pedidos de auxílio das comunidades deveriam passar pelos consulados e pela legação; “para evitar sua publicação”, ficaram proibidos os pedidos diretos ao Auswärtiges Amt.23Em junho de 1901, o próprio chanceler do Reich instruía a legação: no Brasil, o cultivo da língua e dos costumes alemães só poderia ser fomentado a partir de Berlim “se as medidas destinadas a isso se realizarem de modo discreto e se for evitado tudo o que possa despertar e alimentar o ciúme e a falsa suspeita dos nativistas locais”.24 Meses depois, Treutler pôde comunicar que, graças às precauções tomadas, o apoio às escolas não fora mencionado na imprensa, e que também no futuro “não se dará aos nossos inimigos e invejosos ocasião” de tirar conclusões odiosas da assistência do Reich.25

O passo seguinte foi organizar o professorado. Em 1903, ao apoiar os pedidos de auxílio da associação católica de professores (fundada em 1898) e da evangélica (1901), Treutler escrevia: “A meu ver, podemos criar nas associações de professores, por meio do controle e da fiscalização naturalmente ligados a um apoio considerável, organizações extremamente valiosas.” Pedia, por isso, que as subvenções só fossem concedidas onde fossem eficazes e assegurassem “um certo controle”.26 Em 1904, todas as escolas subvencionadas aderiam às associações, que funcionavam sob a presidência e a fiscalização do cônsul.27 Em 1907, o ministro Reichenau registrava cada novo pedido de auxílio como “um passo à frente no caminho do fortalecimento oficial do germanismo no Brasil e da influência oficial sobre as escolas alemãs existentes no interesse alemão”; e as instruções repetiam que essa política deveria ser feita “em silêncio” (still schweigend), poupando a “suscetibilidade facilmente excitável” das comunidades camponesas.28

Esses documentos estabelecem um ponto que vai além do debate entre publicistas: desde cerca de 1900, o Estado alemão financiou e dirigiu, por meio de seus representantes oficiais, uma política destinada a manter os teuto-brasileiros culturalmente ligados ao Reich e a impedir sua assimilação; e o fez deliberadamente às ocultas, porque sabia que ela seria vista no Brasil como ingerência. Schulze, que é crítico de Hell, confirma por outra via o quadro geral: a partir de cerca de 1900 somaram-se às associações privadas “atividades de órgãos estatais”, e os representantes alemães agiam “de modo antes discreto” diante das autoridades brasileiras.29 O sigilo tem uma consequência metodológica que deve ser dita com clareza: aquilo que os contemporâneos podiam ver era, por instrução expressa de Berlim, apenas uma parte do que se fazia. A ausência de vestígios públicos não pode, portanto, servir de prova de ausência de política.

Os mesmos documentos também mostram os limites dessa política. Segundo Hell, cerca de metade dos professores do Rio Grande do Sul manteve-se afastada das associações, recusando-se a contribuir para a “centralização antibrasileira” de suas escolas; em 1912, a associação católica tinha 90 membros e a evangélica, 105.30 Schulze documenta em detalhe o desinteresse e a resistência de muitos colonos às iniciativas dos agentes do germanismo, que voltavam frustrados à Alemanha.31

3. Ferrovia, colonização e diplomacia: o caso de Santa Catarina

O segundo núcleo documental da tese de Hell diz respeito à colonização. Em 26 de dezembro de 1911, a Santa-Catharina-Eisenbahn-Aktiengesellschaft, com participação de grandes bancos alemães liderados pelo Deutsche Bank, firmou contrato com o governo federal brasileiro para a construção de uma ferrovia em Santa Catarina; entre as cláusulas, as terras de ambos os lados da linha eram cedidas à companhia para fins de colonização.32 Cinco dias depois, o chanceler Theobald von Bethmann Hollweg escrevia ao imperador destacando a “importância extraordinária” do contrato para a estratégia do germanismo e para a defesa contra o “perigo norte-americano”.33 Para Hell, “o planejamento secreto da transformação do sul do Brasil numa nova Alemanha parecia aproximar-se de sua realização”.34

Hell atribui papel central ao chanceler brasileiro Lauro Müller, filho de imigrantes alemães de Santa Catarina, a quem chama de “dedicado promotor desse objetivo”; para cultivar sua simpatia, a legação obteve do imperador um retrato autografado, oferecido em 1912.35 Em sua síntese, Hell sustenta ainda que, entre 1903 e 1907, depois da intervenção anglo-alemã na Venezuela, a diplomacia alemã reconheceu oficialmente a Doutrina Monroe e “simulou, por meio de ações dirigidas, a inexistência” do objetivo anexionista no sul do Brasil, e que de 1907 a 1914 pôde apoiar-se em Müller, interessado numa associação teuto-brasileira contra a influência norte-americana.36

Aqui a passagem do documento à interpretação precisa ser acompanhada com cuidado. A carta de Bethmann Hollweg prova que o governo alemão via a colonização ao longo da ferrovia como peça da sua política de germanidade e da sua rivalidade com os Estados Unidos; não contém, na forma citada, uma referência a anexação. A leitura de Müller como agente dessa política choca-se com a de Carlos H. Oberacker Jr., para quem Müller foi um estadista brasileiro de orientação própria — e que reproduz a declaração do chanceler ao renunciar em 1917, acusado de germanofilia: “sou brasileiro” e, como brasileiro, lutaria contra a Alemanha se fosse preciso.37 Schulze observa, por fim, que as participações de empresas alemãs na Hanseatische Kolonisationsgesellschaft e na companhia ferroviária de Santa Catarina resultaram em prejuízo, e que as firmas alemãs, dependentes de boas relações com o Brasil, evitavam envolver-se abertamente na política de germanidade.38

A desconfiança brasileira, de todo modo, não surgiu do nada. Em novembro de 1912, depois que uma carta publicada no Spectator de Londres sugeriu permitir à Alemanha “conquistar o Brasil pela força das armas” como preço da paz europeia, a Gazeta de Notícias publicou um mapa dos estados do sul com a faixa costeira de Porto Alegre ao Paraná marcada como “Allemanha Antartica”, e o ex-governador de Santa Catarina Gama Rosa declarou os colonos teuto-brasileiros um perigo para a integridade do país.39 Durante a Primeira Guerra Mundial, os consulados estimularam coletas regulares de “donativos de guerra” para a Cruz Vermelha alemã — em Blumenau, “por sugestão nossa”, escrevia o cônsul em 1915 —, e a propaganda e a espionagem alemãs dirigidas a partir de Buenos Aires tiveram “certos êxitos”.40 Os telegramas do encarregado de negócios alemão em Buenos Aires, conde Luxburg, divulgados pelos Estados Unidos em 1917, foram lidos no Brasil como prova de um plano contra a soberania nacional e pesaram na declaração de guerra de 26 de outubro de 1917, seguida do estado de sítio nos três estados do sul, do fechamento temporário das escolas alemãs e da fiscalização das empresas alemãs.41

4. Plano de anexação? O debate historiográfico

A tese de Hell foi recebida de modo desigual. Gerhard Brunn, em estudo publicado em 1971 com base nas fontes da República Federal, concluiu que a política alemã de interesses no Brasil foi “hesitante e sem plano”, a ponto de dificilmente se poder falar de “império informal”.42 Schulze adota essa conclusão e é severo com Hell: a historiografia do imperialismo da RDA teria procurado provar intenções expansionistas no sul do Brasil, “trabalhou para isso de modo pouco rigoroso com as fontes” e “não conseguiu, afinal, comprovar a tese”; quando Friedrich Schuler retomou a tese em 2010, não teria apresentado “provas documentais abrangentes”.43 René Gertz registra as teses de Hell e Brunn como “divergentes”.44 Um ensaio bibliográfico de Hans Werner Tobler e Peter Waldmann formulou a questão em 1980 no próprio título, com ponto de interrogação: “uma nova Alemanha no Cone Sul?”.45

Um balanço equilibrado precisa separar três níveis. No primeiro, o dos fatos documentados, a obra de Hell resiste melhor do que sugere a crítica: as cartas do chanceler, dos ministros e dos cônsules que ele cita, com cota de arquivo, mostram uma política estatal, financiada e sigilosa, de germanidade e de controle das escolas e associações. Nenhum dos críticos citados contesta esses documentos um a um; Schulze, cujo livro trata de discursos e não da política escolar do Auswärtiges Amt, remete a Brunn sem discutir as peças específicas reproduzidas por Hell. No segundo nível, o da qualificação, a crítica tem razão em apontar que Hell sobrepõe aos documentos um vocabulário próprio — “objetivos de conquista”, “objetivos imperialistas”, “planejamento secreto” — que as citações literais nem sempre sustentam. A diferença entre “conquistas nacionais pelo caminho mais pacífico”, na expressão do cônsul Reinhardt, e uma anexação territorial é real e não pode ser apagada. No terceiro nível, o do resultado, o próprio Hell chega a uma conclusão que costuma ser esquecida: a política anexionista de germanidade no Brasil entre 1890 e 1914 foi “ideologicamente muito eficaz, mas politicamente, afinal, malsucedida”, por três razões — a afirmação nacional brasileira e as aspirações de autonomia dos próprios teuto-brasileiros, “orgulhosos de sua cidadania no Brasil livre”, que desejavam apenas um vínculo cultural e comercial com o Reich; a queda da emigração alemã, que tornou inviável uma colonização em massa; e a correlação real de forças, em especial a Doutrina Monroe imposta pelos Estados Unidos depois da crise venezuelana.46

Hell publicou uma versão resumida de sua tese num volume coletivo da Universidade Humboldt, o que permite citá-la em forma impressa.47 A tese datilografada, que o autor deste artigo pôde consultar anos atrás por meio da plataforma de empréstimo Invenio do Bundesarchiv, já não aparece hoje nos catálogos de empréstimo. Essa dificuldade de acesso é, em si, um problema de pesquisa: uma controvérsia central sobre a política alemã na América do Sul repousa em parte sobre um trabalho que poucos puderam ler, e só um reexame das peças citadas por Hell, nos fundos hoje conservados em Berlim, permitirá decidir até onde elas sustentam a sua interpretação.

5. Continuidade e ruptura: o aparato nacional-socialista

Para Hell, a ligação entre os dois períodos é direta: o nazismo teria herdado do imperialismo guilhermino a “utopia da nova Alemanha” e procurado realizá-la a curto prazo por meio de uma política de germanidade forçada. Os elementos dessa política seriam um partido rigidamente organizado no sul do Brasil, com ordens da Auslandsorganisation em Berlim; a estreita colaboração com o integralismo; a continuação da colonização sistemática no Paraná; a Federação 25 de Julho, que pretendia reunir os teuto-brasileiros “sob direção interna oculta dos nazistas”; a organização da juventude num Jugendring; a expansão das escolas de língua alemã; e a difusão maciça da ideologia nazista. De uma ditadura integralista os nazistas esperariam não só o prolongamento do Eixo até o Rio de Janeiro, mas também o reconhecimento de um “direito dos grupos étnicos” como ponto de partida para a autonomia política dos teuto-brasileiros. O Estado Novo de Vargas, longe de ser fascista, teria defendido o país contra o integralismo e contra “a construção planejada de um poder estatal da quinta-coluna alemã no sul do Brasil”, e a repressão ao levante integralista de maio de 1938 teria liquidado definitivamente o projeto: “o ‘cavalo de Troia’ dos nazistas sucumbiu em 1938, tal como a ‘utopia da nova Alemanha’ do guilherminismo”.48

A pesquisa posterior confirma parte desse quadro e corrige outra. Confirma a continuidade dos instrumentos: Schulze mostra que os nazistas mantiveram em grande parte a política cultural e de germanidade de Weimar, ampliaram a rede consular no Rio Grande do Sul — vice-consulados em Erechim, Ijuí e Uruguaiana (1936), Santa Cruz (1938) e José Bonifácio (1939) — e que a Auslandsorganisation procurou influenciar também os descendentes sem cidadania alemã e “nivelar” (gleichschalten) suas associações, atuando muitas vezes de forma agressiva.49 Max Paul Friedman resume o que aconteceu em país após país: depois de 1933, a resistência aberta nas comunidades foi rapidamente sufocada, e dirigentes do partido entraram nas reuniões das diretorias de escolas e clubes alemães “para exigir o controle como os verdadeiros representantes do Führer”.50

O aparato era complexo e atravessado por rivalidades. A Auslandsorganisation der NSDAP (AO), dirigida por Ernst Wilhelm Bohle, respondia pelos cidadãos alemães (Reichsdeutsche); o Volksbund für das Deutschtum im Ausland (VDA) e, a partir de 1937, a Volksdeutsche Mittelstelle (VoMi), controlada pela SS, pelos descendentes sem cidadania (Volksdeutsche); o Deutsches Ausland-Institut (DAI), em Stuttgart, pela pesquisa e pelos contatos. Na disputa, a AO perdeu influência sobre a política étnica em geral, mas manteve a América Latina em sua esfera.51 Os arquivos do DAI, estudados por Smith, mostram como esse aparato funcionava: um fichário com dezenas de milhares de organizações alemãs no exterior, centenas de jornais e cartas recebidos diariamente, relatórios confidenciais encomendados a cônsules e uma rede de “homens de confiança” (Vertrauensmänner) nas comunidades. Em 1942, Walter Kappe, oficial da Abwehr, recorreu a esses fichários para selecionar os oito sabotadores enviados aos Estados Unidos.52

Também aqui a regra era a duplicidade entre discurso público e prática interna. Publicamente, Bohle insistia em que os alemães no exterior não deveriam imiscuir-se na política do país hospedeiro, e a AO limitava a filiação aos cidadãos alemães.53 Mas, quando o Brasil proibiu as atividades políticas de estrangeiros em 1938, Bohle telegrafou à embaixada no Rio de Janeiro, em 18 de maio, instruindo a evitar a exposição pública do partido, a desligar formalmente os Volksdeutsche do partido e de suas organizações e a preparar a criação de comunidades de cidadãos alemães “sob direção sigilosa do partido”.54 No mesmo ano, o chefe do partido no Brasil, Hans Henning von Cossel, voltou ao país como adido cultural, o que lhe dava imunidade diplomática.55 O padrão — atuar discretamente, recuar em público e manter a direção por trás — é o mesmo que as instruções de 1901 prescreviam aos diplomatas do Império.

A frase frequentemente atribuída a Bohle, “todo alemão no estrangeiro deve agir como agente do Reich” não foi localizada nas fontes e estudos consultados. Sua formulação literal não deve, por isso, ser citada como palavra de Bohle sem indicação de origem. Mas o seu sentido não é estranho às fontes. Já em 1896, em discurso amplamente citado, Guilherme II proclamava que “do Império alemão nasceu um império mundial”, que “milhares de compatriotas” viviam em todas as partes da Terra e que era dever ligar “esse Grande Império Alemão” estreitamente à pátria.56 A prática documentada da AO, que tratava os cidadãos alemães no exterior como membros disciplinados de uma comunidade dirigida a partir de Berlim, é compatível com a frase; a questão em aberto é apenas a de sua autoria.

As correções que a pesquisa recente traz a Hell são igualmente importantes. A primeira refere-se à origem do partido: os primeiros grupos locais do NSDAP no Brasil surgiram em Santa Catarina — Timbó, em 1928 ou 1929, depois Bela Aliança e Blumenau — antes de existir a própria Auslandsorganisation, criada em 1931; não foram, portanto, simples emanação de um plano de Berlim.57 Luís Edmundo Moraes generaliza a observação: os grupos do partido no exterior nasceram em geral de iniciativas locais, dispersas e pessoais, e só depois foram organizados e estruturados a partir de Berlim.58 A segunda refere-se às prioridades: a política étnica nazista concentrou-se na Europa oriental, onde Volkstumse associava a “espaço vital”, e a política externa para a América Latina limitou-se essencialmente ao comércio — terreno em que a Alemanha chegou em 1938 a ser o principal fornecedor do Brasil.59 A terceira refere-se ao resultado: segundo Friedman, o saldo dos organizadores do partido na América Latina foi, na maior parte dos casos, “fraco”, reflexo do baixo lugar da região nas prioridades do regime e dos obstáculos ao racismo nazista em sociedades marcadas pela diversidade.60

6. O caso brasileiro: partido, escolas e repressão

O Brasil abrigou a maior seção do partido nazista fora da Alemanha. Segundo Ana Maria Dietrich, o partido atuou legalmente no país até 1938, chegou a cerca de 2.900 filiados — o maior contingente entre os 83 países em que esteve presente — e organizou-se em 17 estados.61 O número deve ser lido em proporção: a filiação estava restrita aos cidadãos alemães, e o censo de 1940 ainda contaria 70.222 pessoas com nacionalidade alemã no país, para uma população de origem alemã muitas vezes maior.62 A influência estendia-se, porém, muito além do partido: o professorado no exterior era avaliado conjuntamente pelo Auswärtiges Amt, pela AO e pelo ministério da Educação do Reich, e Dietrich estudou a articulação, em São Paulo, entre a Escola Alemã da Vila Mariana, o jornal Deutscher Morgen e o Banco Alemão Transatlântico.63

O “perigo alemão” voltou ao debate público brasileiro a partir de 1936. Em 2 de setembro de 1937, o Times de Londres publicou artigo segundo o qual a maioria dos brasileiros natos descendentes de colonos alemães era ensinada a dever fidelidade à Alemanha e não ao Brasil; pela primeira vez, Vargas pronunciou-se publicamente sobre o assunto, pedindo ao Reich que limitasse a atividade de seus representantes. Logo depois, O Globo enviou um repórter ao vale do Itajaí para um “amplo inquérito” intitulado “Há infiltração e espionagem nazista no Sul do Brasil?”.64 A reação do Estado brasileiro veio com o Estado Novo. Os estados do sul anteciparam-se ao governo federal: o Rio Grande do Sul proibiu os partidos estrangeiros em 15 de fevereiro de 1938, e Santa Catarina, em 8 de março.65 O Decreto-Lei n.º 383, de 18 de abril de 1938, vedou aos estrangeiros “qualquer atividade de natureza política” e proibiu a brasileiros, “ainda que filhos de estrangeiros”, a participação em associações estrangeiras.66 Ao protesto do embaixador alemão, o ministro Oswaldo Aranha respondeu que o governo não iria “admitir a existência de um Estado estrangeiro dentro do Estado Nacional”.67

A campanha de nacionalização que se seguiu foi em parte alimentada pelo temor do “perigo alemão” e atingiu profundamente a rede escolar construída desde o Império: só no Rio Grande do Sul, os decretos do Estado Novo afetaram 1.041 escolas étnicas alemãs, 1.226 professores e 45.576 alunos.68 Depois do rompimento com o Eixo, em janeiro de 1942, a guerra chegou à costa brasileira: em agosto de 1942, o submarino U-507, comandado por Harro Schacht, afundou seis navios brasileiros, entre eles o Baependy, em que morreram 270 das 306 pessoas a bordo.69Esses ataques precipitaram a declaração de guerra, em 22 de agosto de 1942, e a repressão intensificou-se. Em 1942, o chefe de polícia do Rio Grande do Sul, Aurélio da Silva Py, publicou relatórios com documentos apreendidos que, segundo ele, provavam a propaganda nazista feita pelo consulado e as subvenções pagas a associações; a polícia política prendeu suspeitos e internou cidadãos do Eixo, atingindo muitas vezes pessoas sem vínculo real com o partido.70 Quanto à espionagem, os estudos de Stanley Hilton e de Leslie Rout e John Bratzel documentaram as redes do serviço de inteligência militar alemão no Brasil e no Cone Sul e sua desarticulação a partir de 1942; essas redes existiram, mas sua eficácia foi limitada e sua relação com a massa da população teuto-brasileira, tênue.71

7. Separação ou retorno? A política nazista diante das comunidades americanas

Se o objetivo nazista no sul do Brasil fosse a secessão, seria de esperar que o Reich procurasse manter ali, a todo custo, os seus cidadãos mais fiéis. As fontes mostram, em parte, o contrário. Entre meados de 1937 e setembro de 1939, o Brasil foi o país de onde partiu o maior número de cidadãos alemães que regressaram à Alemanha — pelo menos 8.384, segundo a estatística oficial do Reich, mais do que dos Estados Unidos.72 O regresso era administrado pelo Rückwandereramt, órgão criado em 1934 pela própria AO para cadastrar, examinar política e racialmente e encaminhar ao trabalho os que voltavam; e a proporção de retornados foi maior entre os membros do NSDAP no Brasil do que entre os cidadãos alemães em geral.73 O Auswärtiges Amt, contudo, manteve uma posição prudente: priorizou a cooperação econômica com o Brasil e não promoveu uma repatriação em massa, limitando-se a facilitar o retorno da mão de obra qualificada de que necessitavam a indústria e o rearmamento.74 A expressão heim ins Reich (“de volta ao Reich”), ressalta Frotscher, designava no jargão nazista sobretudo o deslocamento coordenado de Volksdeutsche da Europa para dentro das fronteiras alemãs.75

O caso norte-americano, estudado por Smith, aponta na mesma direção. A partir de 1939, a prioridade passou a ser trazer de volta os alemães e descendentes considerados úteis: um relatório de fevereiro de 1941, elaborado em Posen, propunha recrutar teuto-americanos qualificados para industrializar territórios poloneses anexados, e a associação de antigos membros do Bund regressados, a Kameradschaft USA, cadastrou voluntários para o Osteinsatz.76 Já em 1938, o cônsul-geral em Nova York, Heinrich Borchers, recomendava abandonar a organização política dos teuto-americanos e “reconquistar inteiramente para a Alemanha” ao menos os aptos a servir à pátria.77

Isso não autoriza a conclusão oposta, de que o nazismo tivesse renunciado a qualquer influência política no Brasil. O telegrama de Bohle de maio de 1938 mostra a convivência das duas linhas: retirada pública e regresso dos militantes mais expostos, de um lado; manutenção de comunidades sob direção sigilosa do partido, de outro. O que as fontes conhecidas não mostram, para o período 1933–1945, é um documento que estabeleça como objetivo a separação territorial do sul do Brasil. A tese de Hell de que a autonomia política dos teuto-brasileiros seria o ponto de chegada de um “direito dos grupos étnicos” é plausível à luz da política nazista na Europa central, mas, para o Brasil, permanece inferência.

8. O “perigo alemão” como arma de propaganda

O “perigo alemão” foi também, desde o início, um instrumento na disputa entre as grandes potências. A partir de 1899, jornais ingleses, norte-americanos e franceses, como o Times e o New York Herald, acusaram a Alemanha de buscar territórios no sul do Brasil, e a imprensa brasileira reproduziu e ampliou essas acusações; o caso da canhoneira Panther, cujos marinheiros capturaram um desertor em Itajaí em novembro de 1905, obrigou o Reich a apresentar desculpas formais.78 Sílvio Romero deu ao tema forma de livro em 1906, com O alemanismo no sul do Brasil; seguiram-se, entre outros, O perigo prussiano no Brasil (1914), de Raimundo Bandeira, e O pangermanismo no sul do Brasil (1915), de Raul Darcanchy.79 Nem todos os brasileiros aceitavam essas teses: muitos comentadores consideravam exagerado o temor de uma invasão.80

Nos anos 1930 e 1940, o mesmo esquema reapareceu com nova força. Em 1938, o jornalista argentino Ernesto Giudici, em Hitler conquista América, sustentava que as colônias alemãs haviam sido fundadas em pontos estratégicos e serviam como postos avançados ideológicos, apoio às oligarquias, centros de espionagem, mercados e bases militares — uma teoria em que, observa Moraes, tudo é controlado “de cima” e todo o passado da emigração ganha sentido a partir do projeto de Hitler.81 O caso mais conhecido de manipulação é o “mapa secreto” apresentado por Franklin D. Roosevelt em 27 de outubro de 1941, que mostraria a divisão da América do Sul em cinco Estados vassalos do Reich: Nicholas Cull mostrou tratar-se de uma falsificação disseminada pelo serviço britânico British Security Coordination.82A campanha norte-americana contra os alemães da América Latina, que levou à deportação e ao internamento de milhares de pessoas nos Estados Unidos, baseou-se frequentemente em suspeitas sem prova.83 Na Argentina, Ronald Newton mostrou como a “ameaça nazista” foi ao mesmo tempo real e politicamente instrumentalizada.84

Reconhecer a dimensão propagandística do “perigo alemão” não equivale, porém, a negá-lo. Os documentos do Auswärtiges Amt citados acima mostram que a suspeita dos “nativistas” brasileiros, que o chanceler do Reich chamava de “falsa” em 1901, se referia a uma política que existia e que Berlim fazia questão de ocultar.

9. O esquema das “quatro fases” à luz das fontes

A ideia de um plano nazista em fases não é nova. Esquemas semelhantes circulavam muito antes de 1933. Em 1919, Loretta Baum resumia, com base em autores anglo-saxões, o “programa alemão” no Brasil em três partes: colonizar o sul com imigrantes que permanecessem alemães; expandir a atividade comercial, industrial e financeira, com o controle das comunicações; e obter o abandono ou a modificação da Doutrina Monroe, o que permitiria converter a preponderância econômica em ganho político “sem guerra”. Baum acrescentava que os alemães eram, no sul do Brasil, funcionários locais, comerciantes, pastores, professores e artesãos.85 Os quatro passos lembrados por contemporâneos — imigração dirigida, estruturas próprias como escolas e igrejas, ocupação de cargos locais e apoio da indústria alemã — correspondem, cada um, a práticas documentadas: a revogação, em 1895–1897, da proibição prussiana de propaganda emigratória para o sul do Brasil; o fundo escolar e a direção consular das escolas e associações; a presença de teuto-brasileiros nas administrações municipais das zonas coloniais; e a participação de bancos e empresas alemãs em projetos como o de Santa Catarina.86

O que não se encontrou foi um documento que articule esses elementos como etapas de um plano único, seja no Império, seja no Terceiro Reich. O esquema das fases é, portanto, uma síntese interpretativa — formulada primeiro por observadores contemporâneos, muitos deles vinculados às potências rivais da Alemanha — de práticas que, estas sim, são documentadas.

Para o período nazista, vários dos instrumentos reunidos nesse esquema estão bem documentados na bibliografia: a nazificação das escolas alemãs, a ação da agência de notícias Transocean, o apoio de parte da imprensa a posições pró-nazistas e as redes de espionagem, tratadas na seção 6.

Conclusão

A ideia de um “plano nazista” para dominar a América do Sul condensa, numa fórmula de efeito, realidades históricas distintas, e o seu principal problema é cronológico: situa no Terceiro Reich o início de uma política que o Estado alemão já praticava no sul do Brasil desde cerca de 1900.

Os documentos do Auswärtiges Amt reproduzidos por Jürgen Hell estabelecem que o Império alemão financiou e dirigiu, por meio da legação e dos consulados, uma política escolar e associativa destinada a preservar a germanidade dos colonos, impedir sua assimilação e mantê-los ligados ao Reich; que essa política colocou as associações de professores sob presidência consular; e que foi conduzida, por instrução expressa de Berlim, de modo discreto e silencioso, para não despertar a desconfiança brasileira. Ao mesmo tempo, publicistas influentes e alguns representantes oficiais falaram abertamente de um futuro político alemão para a região, e o chanceler do Reich tratou a colonização ao longo da ferrovia de Santa Catarina como questão de estratégia. Se tudo isso constituía um plano de anexação, como sustentou Hell, ou uma política de influência cultural e econômica sem objetivo territorial definido, como sustentam Brunn e Schulze, é questão que permanece em aberto. A crítica a Hell, porém, ainda não enfrentou um a um os documentos que ele cita, e o próprio caráter sigiloso da política impõe prudência a quem conclui pela inexistência de objetivos políticos a partir do silêncio das fontes públicas. Hell, de seu lado, reconheceu que essa política, ideologicamente eficaz, fracassou politicamente — sobretudo porque os teuto-brasileiros queriam ser cidadãos do Brasil.

Para o período nazista, está documentado que o regime retomou e radicalizou os instrumentos herdados — escolas, associações, consulados, imprensa — e acrescentou o partido, a doutrinação racial e a espionagem; que manteve a duplicidade entre discurso público de contenção e direção sigilosa; e que, diante da repressão brasileira de 1938, combinou o recuo público com a manutenção de estruturas ocultas e o regresso ao Reich de parte de seus cidadãos. Não se conhece, porém, um documento que estabeleça um plano central de conquista em fases ou um projeto de secessão territorial; os elementos do esquema das “quatro fases” são reais, mas sua articulação num plano único é interpretação.

O “perigo alemão”, por fim, foi ao mesmo tempo política real, ameaça percebida, instrumento de nacionalização do Estado Novo e arma da propaganda das potências rivais. Compreendê-lo exige resistir tanto à minimização da ação alemã, desmentida pelos documentos, quanto à sua transformação numa conspiração onipresente, que as fontes não sustentam. O passo seguinte da pesquisa é claro: voltar às peças do Auswärtiges Amt citadas por Hell, hoje conservadas em Berlim, e lê-las por inteiro.

Notas

  1. Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”. Sobre o autor e a recepção da tese, ver Alves, “Jürgen Hell e a produção historiográfica sobre o Brasil na ex-República Democrática Alemã”, 161–179.

  2. Schulze, Auswanderung als nationalistisches Projekt; Frotscher, “Da celebração da etnicidade teuto-brasileira à afirmação da brasilidade”; Bertonha e Athaides, The Nazi Party and the German Communities Abroad; Baum, “German Political Designs with Reference to Brazil”, 586–599; Smith, The Deutschtum of Nazi Germany and the United States.

  3. Schulze, Auswanderung als nationalistisches Projekt.

  4. Sobre Georg Anton Schäffer e os Brummer: [fonte a confirmar].

  5. Citação de Hermann Meyer: [fonte a confirmar].

  6. Epp, Rio Grande do Sul oder Neudeutschland, p. III–IV.

  7. Epp, Rio Grande do Sul oder Neudeutschland.

  8. Epp, Rio Grande do Sul oder Neudeutschland.

  9. Epp, Rio Grande do Sul oder Neudeutschland, p. 99.

  10. Johann Jakob Sturz, Kann und soll ein Neu-Deutschland geschaffen werden und auf welche Weise? (Berlim: Nicolai, 1862). [página a confirmar; verificar se a passagem está nesta obra ou em Die Krisis der deutschen Auswanderung, do mesmo ano]

  11. Fabri, Bedarf Deutschland der Colonien?; Ernst von Weber, Die Erweiterung des deutschen Wirtschaftsgebiets und die Grundlegung zu überseeischen deutschen Staaten (Leipzig, 1879).

  12. Gustav Schmoller, “Die wirtschaftliche Zukunft Deutschlands und die Flottenvorlage”, in Handels- und Machtpolitik, org. Gustav Schmoller, Max Sering e Adolph Wagner, v. 1 (Stuttgart: J. G. Cotta, 1900), 35–36; cf. Baum, “German Political Designs with Reference to Brazil”, 587–588.

  13. Die Grenzboten, 1903, artigo anônimo, reproduzido em Baum, “German Political Designs with Reference to Brazil”, 588.

  14. Tannenberg, Groß-Deutschland, 265–266; Baum, “German Political Designs with Reference to Brazil”, 591.

  15. Deutsche Post (São Leopoldo): [fonte a confirmar].

  16. Walther Reinhardt ao Auswärtiges Amt, 1921: [fonte a confirmar].

  17. [fonte a confirmar].

  18. Denkschrift sobre as escolas alemãs no exterior, citada segundo Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  19. Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  20. Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  21. Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  22. Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”. A memória de dezembro de 1902: DZA Potsdam, fundo Auswärtiges Amt, citado segundo Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  23. DZA Potsdam, fundo Auswärtiges Amt, citado segundo Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  24. DZA Potsdam, fundo Auswärtiges Amt, citado segundo Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  25. DZA Potsdam, fundo Auswärtiges Amt, citado segundo Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  26. DZA Potsdam, fundo Auswärtiges Amt, citado segundo Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  27. Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  28. DZA Potsdam, fundo Auswärtiges Amt, citado segundo Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  29. Schulze, Auswanderung als nationalistisches Projekt.

  30. Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  31. Schulze, Auswanderung als nationalistisches Projekt.

  32. Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  33. Bethmann Hollweg ao imperador, DZA Potsdam, fundo Auswärtiges Amt, citado segundo Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  34. Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  35. Hell, “Die Politik des Deutschen Reiches zur Umwandlung Südbrasiliens in ein überseeisches Neudeutschland (1890–1914)”.

  36. Hell, “Das ‘südbrasilianische Neudeutschland’”, 103–124.

  37. Oberacker, Der deutsche Beitrag zum Aufbau der brasilianischen Nation.

  38. Schulze, Auswanderung als nationalistisches Projekt.

  39. Sobre a carta ao Spectator, o mapa da Gazeta de Notícias e Gama Rosa (1912): [fonte a confirmar].

  40. Relatório consular de 1915: [fonte a confirmar].

  41. Sobre os telegramas de Luxburg e a declaração de guerra de 1917: [fonte a confirmar].

  42. Brunn, Deutschland und Brasilien (1889–1914).

  43. Schulze, Auswanderung als nationalistisches Projekt; Schuler, Secret Wars and Secret Policies in the Americas, 1842–1929.

  44. Gertz, “Brasil e Alemanha: os brasileiros de origem alemã na construção de uma parceria histórica”, 122–124.

  45. Tobler e Waldmann, “German Colonies in South America: A New Germany in the Cono Sur?”.

  46. [fonte a confirmar].

  47. Hell, “Das ‘südbrasilianische Neudeutschland’”, 103–124.

  48. Hell, “Das ‘südbrasilianische Neudeutschland’”, 103–124.

  49. [fonte a confirmar].

  50. Friedman, Nazis and Good Neighbors.

  51. [fonte a confirmar].

  52. Smith, The Deutschtum of Nazi Germany and the United States. [fonte a confirmar].

  53. [fonte a confirmar].

  54. PAAA, R 104939, citado segundo Rahmeier, “Relações diplomáticas entre Alemanha e Brasil – dezembro de 1937 a julho de 1939”, 201 e 211, n. 35; Frotscher, “Retorno à pátria alemã”.

  55. Rahmeier, “Relações diplomáticas entre Alemanha e Brasil – dezembro de 1937 a julho de 1939”, 206.

  56. Discurso de Guilherme II por ocasião do 25.º aniversário da fundação do Império, Berlim, 18 de janeiro de 1896.

  57. Dietrich, “Nazismo tropical? O partido nazista no Brasil”; Bertonha e Athaides, The Nazi Party and the German Communities Abroad.

  58. Luís Edmundo Moraes: [fonte a confirmar] (obra que falta nas Referências).

  59. [fonte a confirmar].

  60. Friedman, Nazis and Good Neighbors.

  61. Dietrich, “Nazismo tropical? O partido nazista no Brasil”.

  62. Censo de 1940: [fonte a confirmar].

  63. Dietrich, Caça às suásticas. Sobre a avaliação do professorado no exterior: [fonte a confirmar].

  64. Sobre o artigo do Times de 2 de setembro de 1937 e o inquérito de O Globo: [fonte a confirmar].

  65. [fonte a confirmar].

  66. Brasil, Decreto-Lei n.º 383, de 18 de abril de 1938.

  67. Resposta de Oswaldo Aranha: [fonte a confirmar].

  68. Dados sobre as escolas do Rio Grande do Sul: [fonte a confirmar].

  69. uboat.net, “Baependy”, https://uboat.net/allies/merchants/ship/2047.html, acesso em 28 out. 2026.

  70. Aurélio da Silva Py, A 5ª coluna no Brasil: a conspiração nazi no Rio Grande do Sul (Porto Alegre: Globo, 1942); cf. Gertz, “Brasil e Alemanha: os brasileiros de origem alemã na construção de uma parceria histórica”, 139 e 148, n. 55.

  71. Hilton, Hitler’s Secret War in South America, 1939–1945; Rout e Bratzel, The Shadow War.

  72. Frotscher, “Retorno à pátria alemã”; Frotscher, “Als Nationalsozialist tat ich jederzeit unter schwersten persönlichen Opfern meine Pflicht”, 132.

  73. Frotscher, “Retorno à pátria alemã”; Frotscher, “Als Nationalsozialist tat ich jederzeit unter schwersten persönlichen Opfern meine Pflicht”, 130–131.

  74. Frotscher, “Retorno à pátria alemã”.

  75. Frotscher, “Retorno à pátria alemã”.

  76. Smith, The Deutschtum of Nazi Germany and the United States.

  77. Smith, The Deutschtum of Nazi Germany and the United States.

  78. Schulze, Auswanderung als nationalistisches Projekt, 192–208; Gertz, “Brasil e Alemanha: os brasileiros de origem alemã na construção de uma parceria histórica”, 128.

  79. Sílvio Romero, O alemanismo no sul do Brasil (1906); Raimundo Bandeira, O perigo prussiano no Brasil(1914); Raul Darcanchy, O pangermanismo no sul do Brasil (1915).

  80. Cf. Gertz, “Brasil e Alemanha: os brasileiros de origem alemã na construção de uma parceria histórica”, 132.

  81. Giudici, Hitler conquista América. Sobre a observação de Moraes: [fonte a confirmar].

  82. Cull, Selling War.

  83. Friedman, Nazis and Good Neighbors.

  84. Newton, The “Nazi Menace” in Argentina, 1931–1947.

  85. Baum, “German Political Designs with Reference to Brazil”, 586–599.

  86. Ver acima, seções 1 a 3.

Referências

Fontes de arquivo citadas segundo Hell

Deutsches Zentralarchiv (DZA) Potsdam, fundo Auswärtiges Amt: Nr. 15647, 15648, 30300, 30333, 38730, 38732, 38737, 38739, 38757. Hoje no Bundesarchiv e no Politisches Archiv des Auswärtigen Amts, Berlim.

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